Qualquer filme poderia ser considerado um ato de reencarnação, ou uma história de fantasmas, ou um artefacto que é, de algum modo, ele próprio “morto-vivo”. Sempre que um filme começa, uma manifestação do passado é reanimada no presente, e os momentos outrora registados por uma câmara podem viver de novo. O termo francês para uma sessão de cinema, séance, evidencia essa ligação. Ir ao cinema é celebrar, no presente, um ato de comunhão com aquilo que passou. Muitas vezes, isso implica passar algum tempo com os mortos. Como escreveu J. Hoberman sobre o Orphée de Cocteau: “Os filmes trazem os mortos de volta a vida — desde que mantenhamos os olhos fixos no ecrã.”
Poucas questões terão alimentado de forma tao persistente a imaginação como aquilo que poderá existir para lá da morte. Se o cinema existe, de alguma forma, para além da vida, constitui-se também como meio de singular potência para imaginar e dar forma ao além: constrói-lhe espaços, corpos, movimentos e pontos de vista. Este ciclo procura revelar a extraordinária diversidade desses imaginários — dos espelhos que servem de passagem entre mundos em Orphée (Jean Cocteau, 1950) ao jardim secreto de Women Without Men (Shirin Neshat, 2009), ou a câmara voadora desencarnada de Enter the Void (Gaspar Noé, 2009). O além deixa assim de ser apenas ideia e adquire uma forma, uma presença liminar que não se limita aos espaços, mas atravessa também as figuras que os habitam: corpos suspensos entre a vida e a morte, o humano e o espectral.
Abrindo com Orphée e encerrando com A Matter of Life and Death (Michael Powell e Emeric Pressburger, 1946), o programa é delimitado por duas obras marcantes do cinema do pós-Segunda Guerra Mundial. Não por acaso, ambas surgiram na sequência de tanta morte e destruição: o fantasma da guerra permanece nas suas sombras cinematográficas. Celebradas pela inovação formal e pela dimensão poética, inventam e convidam-nos a entrar num território entre a vida e a morte, na interseção entre realidade e fantasia, memória e imaginação. São também, cada uma a sua maneira, histórias de amor que sobrevivem a passagem entre mundos.
Os 18 filmes que compõem o “cadáver esquisito” de Cinema do Além cruzam épocas, geografias e sensibilidades em torno da sobrevivência da memória, do “limbo” entre a vida e a morte e de diferentes formas de assombração — íntimas, políticas ou coletivas. Os espectros da guerra perseguem também Uncle Boonmee Who Can Recall His Past Lives (Apichatpong Weerasethakul, 2010) ou Our Song to War (Juanita Onzaga, 2018); em Women Without Men, a violência política cruza-se com a opressão patriarcal; os legados da violência colonial surgem sob a forma de mortos-vivos em The Family and the Zombie (Karrabing Film Collective, 2021); e a figura de proa de um navio negreiro, transformada em objeto assombrado, observa os acontecimentos de I Walked With a Zombie (Jacques Tourneur, 1943). Percorrer esta zona entre a vida e a morte é também tornar visível a maneira como o passado continua a assombrar o presente. Em muitos destes filmes, falar do além é também imaginar formas de reparação: um espaço onde aquilo que ficou por resolver pode regressar, onde uma dívida é reclamada, a violência devolvida ou a balança, de algum modo, reequilibrada. Essa ideia encontra talvez a sua expressão mais radical em Kuroneko (Kaneto Shindō, 1968), onde a violência sofrida por duas mulheres em vida regressa sob a forma de vingança sobrenatural.
Mas a morte e o além não surgem apenas sob o signo do luto, da violência ou do assombro: em Sombra dolorosa (Guy Maddin, 2004), o confronto com a própria Morte transforma-se num divertido combate de wrestling; An Asian Ghost Story (Bo Wang, 2023) recorre à sátira e a fabulação sobrenatural para revisitar os fantasmas políticos da modernização asiática; e Oh Be a Fine Girl Kiss Me (Alice dos Reis, 2026) acompanha com humor uma alma em trânsito. O ciclo desloca-se assim entre o terror, o melodrama, a contemplação, o ensaio e a comédia, recusando fixar o além num único género ou perspetiva.
I Walked With a Zombie será exibido com Nosferasta: First Bite (Adam Khalil e Bayley Sweitzer, 2021), suprimindo as quase oito décadas de distância para contrastar dois modos de pensar os legados do colonialismo e de reconsiderar as figuras do zombie e do vampiro. O filme de Jacques Tourneur é ainda um exemplo da capacidade do cinema para transcender as categorias de género através da poética da atmosfera, do ritmo deliberado, da ambiguidade e da quietude, qualidades que sustentam também Uncle Boonmee (…), um filme sublime cuja influência tem “assombrado” o cinema desde a sua estreia. Ao materializar a transmigração das almas e realidades animistas misturando etéreo e quotidiano, as suas inquietações encontram ecos em Flesh and Ghost (Sky Hopinka, 2025), que parte de um mito Hočąk, onde relações ancestrais e saberes indígenas unem corpo e espírito através das sucessivas vagas dos ciclos da vida.
Apichatpong Weerasethakul inspirou-se num livro escrito por um monge budista. Em Enter the Void, Gaspar Noé parte do Livro Tibetano dos Mortos, mas segue noutra direção: uma viagem alucinatória pelo plano astral que mobiliza um exuberante arsenal cinematográfico para acompanhar a alma do protagonista depois da morte. Em Ghost (Jerry Zucker, 1990), por sua vez, Hollywood apropria-se do sobrenatural para construir um thriller romântico em que um morto permanece na Terra como fantasma e recorre a uma médium para proteger a mulher que ama.
Se os antepassados são um tema recorrente ao longo deste programa, assumem uma forma diferente em Invention (Courtney Stephens, 2024), um drama experimental híbrido que nasce da perda recente dos pais da realizadora e da atriz Callie Hernandez, e explora a ténue fronteira entre realidade e ficção, tanto nas relações familiares como na América da “pós-verdade”. Cinema, morte e memória atravessam também Last Movies (Stanley Schtinter, 2026), que parte dos últimos filmes vistos por figuras célebres antes de morrerem para imaginar uma história do cinema através dessas derradeiras imagens. Nestes dois casos, o cinema torna-se uma espécie de memorial, capaz de fintar a morte ao preservar, reconstruir ou partilhar aquilo que permanece dos que já nos deixaram.
Facto, ficção e a matéria mutável da memória dão forma ao extraordinário After Life (Hirokazu Koreeda, 1998), em que os recém-falecidos chegam a uma estação intermédia entre a vida e a morte e são convidados a recriar em filme uma memória fundamental para conservar por toda a eternidade. Koreeda conta que a ideia lhe surgiu quando, ainda jovem, imaginou, certa noite numa sala de montagem, o que seria rever ali a própria vida depois da morte. Nascido deste pensamento, o filme reflete sobre o papel do cinema na construção e partilha de memórias. Como diria mais tarde o realizador: “Não é que acredite em espíritos ou numa vida depois da morte, mas penso que sentir a presença dos mortos enquanto estamos vivos é, na verdade, necessário para podermos refletir sobre a nossa própria vida.” Talvez seja nesse movimento, entre estados de existência, que estes filmes nos devolvam ao presente.
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